Sábado, 25 de Junho de 2011

Mensagem de Encerramento

Aderi à blogosfera em Novembro de 2004, logo após a reeleição de George Walker Bush para o segundo mandato na Casa Branca. Esse foi aliás o assunto da primeira postagem que publiquei no currupto (www.currupto.blogspot.com).

Quase sete anos volvidos, e um processo-crime por alegada difamação  pelo meio, creio ser o tempo de fechar a “tasca”. Não que o meu prazer pela escrita se tenha de mim apeado, ou sequer porque se tenha esgotado o tema (se dúvidas existirem neste particular, bastará, para as dissipar por completo, o mero folhear dos jornais diários dos últimos dias), antes sim, porque o espaço de denúncia e, em certa medida, de apelo à revolta e ao inconformismo, que o currupto representava, deixou, no quadro actual, de fazer qualquer sentido.

Para tal concorrem tanto motivações endógenas (ou se preferirem de ordem pessoal) quanto exógenas (de cariz mais contextual). Comecemos pelas últimas.

Portugal está (outra vez) mergulhado numa crise profunda. Uma breve consulta aos livros de História facilmente deixa perceber que não é a primeira. Nem sequer no meu tempo de vida. E tenho “apenas” 34 anos. Por outro lado, tão pouco será esta a última. Portanto, tal como na vida de cada um, também a História das nações de faz de uma extensa sucessão de altos e baixos. E, em ambos os casos, já os tivemos. No que toca às crises passadas, sempre demos a volta por cima: umas vezes mais facilmente, outras nem por isso; umas vezes melhor, outras pior. Mas SEMPRE soubemos reinventar-nos e vencer a adversidade.

Estou certo que, desta vez não será diferente, pese embora a exigência das circunstâncias seja, aparentemente, bem maior e o conjunto de instrumentos e recursos ao dispor seja, inversamente, mais limitado. Paralelamente, boa parte das causas que nos trouxeram até este ponto, reflectem um declínio que não configura sequer uma tendência recente. Com efeito, desde há vários anos, que os pejorativamente qualificados de “profetas da desgraça ”vêm avisando para este desenlace. Inebriados numa febre consumista, como só se encontra paralelo no esbanjamento e irresponsabilidade colectiva dos séculos XVI a XVIII, gastámos os míseros tostões que as gerações anteriores, por meio do seu suor e sacrifício, amealharam e, pior, endividámo-nos para mantermos um padrão de vida manifestamente incompatível com o nível de produtividade do país. O resultado está, obviamente, à vista de todos.

Os sacrifícios que nos vão ser exigidos (desde, pelo menos, os tempos em que o Prof. Sousa Franco ocupou a pasta das Finanças, que a lenga-lenga se repete, mais parecendo a estória de Pedro e o Lobo), serão, desta feita, muito mais duros do que o habitual. Desta vez o Lobo (que muitos, erradamente, confundem com a missão do Fundo Monetário Internacional, União Europeia e Banco Central Europeu) vem mesmo e teremos de, colectivamente, saber dar-lhe uma resposta à altura.

Aqueles que comigo privam conhecem bem este discurso: a bandalheira e irresponsabilidade colectiva que grassa em muitos sectores do país (particularmente no público – e não se confunda o enunciado anterior com os funcionários públicos, porque não é esse o objectivo – refiro-me em concreto às clientelas, ao nepotismo, ao caciquismo, ao tráfico de influências, à corrupção, etc. que desde há décadas vêm corroendo os alicerces do Estado, esses sim, os verdadeiros responsáveis), só terminaria no dia em que quem financia este Estado-faz-de-conta, se aborrecesse e tomasse conta “disto”. Esse dia, para grande vergonha nossa, chegou a 12 de Abril.

O futuro passa agora por, arregaçar as mangas, pormos ordem na casa, pagarmos, como gente séria e de bem que somos, a quem devemos, e criarmos as condições (financeiras e, sobretudo, culturais/comportamentais) para que o dia 12 de Abril de 2011 não mais se repita na História de Portugal.

As linhas atrás expostas facilmente deixam perceber os motivos de ordem pessoal que motivam o fim do projecto www.currupto.blogspot.com.

Além da alteração, profunda, repita-se, das condições contextuais (sociais e políticas) do país, também eu próprio, nos últimos quatro a cinco anos, modifiquei de modo radical, o meu próprio posicionamento em muitas matérias, com especial incidência na questão ideológica.

Sempre fui (quem me conhece, sabe-o bem) um defensor intransigente da meritocracia, do prémio do mérito. Não deixei de o ser. Pelo contrário. No contexto do mundo globalizado, e numa lógica social profundamente darwiniana, só os organismos mais adaptados poderão prover pela subsistência e prosperidade. Socorrendo-me aqui de uma quase teoria macro-sistémica, diria que, não mais é possível conceber macro-organismos (leia-se Estados) organizados a partir de um eixo centralista, uniformizador e nivelador, que não observa os diferentes níveis de envolvimento das sub-unidades na sua actividade e que, por conseguinte e por incapacidade de se reinventar, permite abundantemente, situações que distorcem e comprometem a própria sobrevivência do organismo.

Dito de outro modo: no mundo actual, não é mais concebível que, numa lógica de pura competição entre Estados, dentro de alguns, subsistam esquemas organizativos nos quais uma pequena minoria seja responsável pelo auto-sustento e pelo provimento das necessidades de terceiros, não raras vezes, ociosos. Não é mais possível, ou sequer aceitável que pequenas minorias altamente qualificadas e produtivas, sejam chamadas, por renúncia de parte substancial do retorno obtido por meio da sua produtividade, a prover ao sustento de outras minorias (?), que, tendo condições para prover ao próprio sustento, por inércia, vícios vários, ou manifesto desinteresse, se alhearam, ou se preferirmos, se excluíram da sociedade produtiva.

Evidentemente que, embora o meu pensamento se encontre no pólo oposto do de Karl Marx, há, pelo menos uma tese em que tendo a concordar com o seu raciocínio: a inevitabilidade da substituição do paradigma capitalista por um outro menos exclusivo. Mas tal sociedade, creio, apenas será possível cumprindo-se uma tripla exigência de abundância de bens e serviços, de equilíbrio na distribuição demográfica pelo globo e, principalmente, pelo fim da competição entre nações tal como a conhecemos hoje, o que apenas poderá ser possível no quadro de uma federação e governo mundiais. Ora, como este raciocínio parece, por enquanto, tão utópico quanto a doutrina marxista, resta, no seio do mundo de competição actual, diligenciarmos no sentido de estarmos, tão próximo quanto possível, do pelotão da frente.

A capacidade de resposta aos desafios colocados por um mundo no qual a única constante é um cenário de mudança permanente, a constante adaptabilidade a novos cenários, a criatividade necessária para, perante cada novo estímulo, sermos capazes de produzir uma resposta adequada a progredirmos continuamente, são algumas das exigências às quais a típica mentalidade portuguesa das últimas décadas (a minha inclusive, porque é produto desse mesmo sistema), não responde.

O www.currupto.blogspot.com, não mais representa do que um espelho desse mesmo paradigma que urge superar. Daí se justifica que, não abra mão deste meu passado, erradicando-o da minha memória, ou que o esconda, apagando-o e varrendo-o para as bafientas prateleiras do olvido. Pelo contrário: o www.pensarXXI.blogspot.com, procurará, no quadro actual, ser um espaço de diálogo, de interrogação e de reflexão, não apenas com os novos tempos (e que tempos!) com um meu eu passado, com memórias e convicções que, por força dos tempos e das circunstâncias o não são mais.

Poderia socorrer-me de uma fórmula muito comum (e que obtém a expressão máxima na problemática da memória tão magistralmente explorada pela obra orwelliana) e não menos cómoda. A de apagar, ou tornar inacessível o www.currupto.blogspot.com. Seguramente que, no em tempos que virão não correria o risco de ser incomodado/confrontado com um modo de pensar que se afasta, em muito, do actual/futuro(?).

Mas, por outro lado, a vida é um permanente diálogo com o(s) nosso(s) eu(s) interior(es), anteriores e actuais. Furtar-me a esse diálogo comigo mesmo seria a confirmação do adágio que só os burros (ou teimosos) não mudam, quando tal se justifica, de opinião.

Donde: declaro, pelo presente, formalmente encerrado o projecto www.currupto.blogspot.com, que é, a partir de hoje e, sabe-se lá até quando, substituído pelo espaço www.pensarXXI.blogspot.com, para o qual convoco o vosso contributo e participação, advertindo que este será um projecto substancialmente diferente daquele que foi o seu antecessor.