Domingo, 26 de Setembro de 2010

A Carlos Queiroz

Portugal, bem o sabemos é um país ingrato e de ingratos. Que o diga Carlos Queiroz!
Não serei seguramente dos fãs mais entusiásticos do ex-seleccionador. Também achei que ficou aquém dos objectivos a participação da selecção no Mundial de Futebol. Não pela saída prematura, mas pelo facto de em quatro jogos apenas se ter verificado uma vitória.


Acresce que, Scolari, indubitavelmente, deixa saudades. Não pela competência, ou sequer pela cordialidade com que tratava o país que o acolheu. Não pelo futebol que a equipa praticava e, nem sequer pelos (óptimos, reconheça-se) resultados alcançados sob o seu comando. Scolari conseguiu dois feitos importantes: construiu um grupo, em cuja composição não permitiu ingerências externas (desde presidentes de clubes, a colegas de profissão, à comunicação social, a empresários de futebol, ou mesmo à estrutura da federação) e, segundo, conseguiu mobilizar o país à volta de uma selecção que vinha sem glória, recordemo-nos, do Mundial Coreia-Japão. Scolari chegou como campeão do mundo e imediatamente tratou de marcar e fortificar o seu território. A primeira vítima foi o ex-titular da baliza da selecção. E, as polémicas foram inúmeras: com colegas, com jornalistas, com presidentes, com jogadores, com adversários, etc..


Mas Scolari tinha duas grandes vantagens: entrara como campeão do mundo, e …era estrangeiro!


Portugal tem este dom: unanimemente recebe bem todos os forasteiros, mas repetidamente maltrata os seus filhos. Queiroz é apenas mais uma, e a última das vítimas deste estranho agir português. Mas, principalmente de um povo sem memória.


Se fomos campeões do mundo de sub-20 em 1989 e 1991, será a ele que o devemos. Se tivemos o privilégio de termos conhecido tantos e tantos jogadores fantásticos e se o nosso futebol está há duas décadas no topo mundial, projectando a imagem e o nome do país, também a ele o devemos. Se fizemos da formação de futebolistas uma “indústria” próspera, o dedo de Carlos Queiroz está lá também.


Reitero: não sou dos maiores fãs de Queiroz. Tive o prazer de lhe telefonar algumas vezes, quando em 2003, na qualidade de Director de Comunicação da Associação de Futebol de Santarém, realizei os contactos com o próprio no sentido de garantir a sua presença no Congresso do Futebol 2003. Nada me move, porém, contra o ex-seleccionador. E, sobretudo, mesmo que tenha proferido algumas palavras azedas relativamente a alguns protagonistas, ou aspirantes a tal, do futebol português, a verdade é que, também o primeiro ministro foi apanhado (nas célebres escutas do processo Face Oculta) a referir-se em termos analogamente deselegantes relativamente à líder do principal partido da oposição e a outras pessoas, sem que exista notícia de lhe ter sido movido qualquer processo disciplinar.


O que existiu aqui, está à vista de todos: alguém, aproveitando-se de uma campanha tristonha no mundial, de um deslize do seleccionador, e do apoio de extensas franjas anti-queirosianas existentes na imprensa desportiva, quis tratar de o “varrer” do comando da selecção, procurando, todavia, através de maquinações e expedientes miseráveis, salvaguardar que o mesmo não receberia aquilo a que teria direito. 


Verdadeiramente inqualificável! Goste-se ou não do personagem, Portugal e o futebol português devem muito a Carlos Queiroz. E convinha que respeitassem um Homem e um Profissional que sempre deu pelo futebol português o que tinha e o que não tinha. Carlos Queiroz cometeu um pecado capital: voltou à FPF sem que a porcaria de que falava em 1993 tivesse sido varrida. Como seria de prever, foi ele quem levou uma vassourada. Melhor teria feito se se tivesse mantido em Manchester. Só perdeu com a troca. Provavelmente até em termos económicos.


Entretanto, confirmando a ideia de casa sem rei nem roque de que mais ou menos todos temos noção ser a FPF, o seu presidente, pasme-se, lembrou-se de ir a Madrid, pedir emprestado ao Real, o seu treinador, para orientar a equipa em dois jogos. Rocambolesco, de facto! A populaça, a mesma que se revela incapaz de perceber que o país está falido e que continua a crer piamente nas balelas cor-de-rosa que um engenheiro formado ao Domingo continua a cantar, evidentemente, exultou: com a ideia peregrina do primeiro e com o patriotismo do segundo, isto claro, com a bênção dos parolos da comunicação social.


Em suma: continuamos, como povo, os mesmos provincianos pacóvios, sem noção da realidade, vivendo numa ininterrupta vertigem de sonhos e ilusões desde há 500 anos, apenas há espera que surja um qualquer charlatão de vão de escada para ocupar o espaço. O sebastianismo messiânico persiste em largas franjas da nossa sociedade. Mesmo nas (pseudo) elites. Uma tristeza….


Segue-se Paulo Bento, o homem da tranquilidade. Não acredito, contudo, que venha a ter muita. Não sei se será o homem certo para o lugar. Poderá até sê-lo, mas não tardará a ser trucidado. O seu curriculo enferma de um pecado capital: tem Bilhete de Identidade português. E logo que se oponha, e acredito que o fará, aos reizinhos do costume que dirigem o futebol português nos bastidores, não tardará que não lhe puxem o tapete. Paulo Bento é só mais um, ...para queimar!